5)Na detecção de animais que irão desenvolver doenças de início tardio: para doenças recessivas,

A ERA DOS EXAMES DE DNA NA CINOFILIA

Clear (normal) – significa que o animal tem ambos os “genes” normais, e não terá a doença, nem transmitirá a mutação

Carrier (portador) - significa que o animal tem um “gene” normal e outro mutado. No caso de doenças recessivas (a maior parte), este cão não terá a doença, mas transmitirá a mutação para 50% de seus filhos.

Affected/at risk (afetado/risco aumentado) - significa que o animal tem ambos os “genes” mutados e terá a doença, ou um risco aumentado de desenvolve-la (depende da doença).

               Outra questão é como interpretar o laudo resultante do teste. Como esta tecnologia já é utilizada há pelo menos três ou quatro anos em países desenvolvidos, toda a nomenclatura de laudos acaba se mantendo em inglês, mesmo que o laudo seja de um laboratório nacional. É importante lembrar que para qualquer exame genético, o laudo deve trazer o resultado de dois “genes” do animal: aquele que ele recebeu de seu pai e aquele que recebeu de sua mãe (os nomes corretos são “alelos” paterno e materno). Como existem duas possibilidades de “genes” – o mutado e o normal – o laudo final do teste terá três possibilidades:

Legenda:

Clear: cão normal, sem nenhuma mutação

Carrier: cão normal, com apenas uma mutação

Affected/at risk: cão com a doença, ou com risco aumentado, portador de duas mutações

Muitos criadores e médicos veterinários utilizam a nomenclatura de ‘positivo’ e ‘negativo’ para estes resultados. O termo ‘positivo’ pode ser um sinônimo para affected/at risk, sem problemas. Porém, ao utilizar o termo ‘negativo’, não fica claro se o mesmo se refere ao animal carrier ou clear, já que nenhum dos dois irá desenvolver a doença.

 

                Sobre o significado dos resultados, novamente é importante lembrar que qualquer teste de DNA é direcionado para um único ponto no genoma. Se pensarmos que o genoma é um palheiro, a agulha no meio do palheiro é o problema genético que se está procurando. O teste de DNA tem a capacidade de encontrar esta agulha no palheiro, mas não avalia se por acaso não existem outras agulhas. Desta forma, um laudo de qualidade sempre terá uma observação ao final, dizendo que a mutação procurada é aquela que a ciência já conhece, mas não se descarta a possibilidade da existência de outras mutações causando a doença, mas que não foram testadas por aquela técnica. Assim, o resultado “negativo” (clear) deve ser interpretado com cautela, pois não é certeza absoluta que o animal nunca irá desenvolver a doença. A única certeza que um resultado clear fornece para o proprietário é a de que a causa conhecida até o momento, que está relacionada com a maior parte dos casos da doença, não está presente naquele animal. Por outro lado, é possível que o animal já tenha o diagnóstico clínico da doença, firmado por um médico veterinário especialista no assunto, e que decidiu fazer também o exame de DNA, e este rende um resultado “clear”. Este resultado não indica que o animal não possui aquela doença, e o que o diagnóstico foi errado. Apenas indica que aquele exame não foi capaz de encontrar a mutação causadora da doença. Como exemplo desta situação, o caso de um filhote da raça Golden retriever, que com meses de idade, já na casa dos tutores, começou a apresentar problemas para caminhar, com as patas traseiras sendo mais afetadas. O filhote foi avaliado, e nenhum problema ortopédico foi detectado. Os sinais clínicos progrediram a olhos vistos ao longo de semanas, e foi detectado um enfraquecimento muscular, com diminuição da massa de musculatura das quatro patas. Em poucos meses, o filhote mal caminhava, e tinha a aparência de extrema magreza, especialmente nas patas. Unindo a presença destes sinais, com ausência de sinais neurológicos e ortopédicos, e ainda por cima ocorrendo na raça em questão, o médico veterinário fechou o diagnóstico em distrofia muscular do Golden retriever. No entanto, o criador decidiu enviar material para laboratório americano, para que fosse realizado o teste de DNA para a doença. No entender do criador, se o teste desse negativo, seria a prova de que o diagnóstico estaria errado e, portanto, que ele poderia continuar reproduzindo os pais desse filhote sem problemas. O laudo do exame justamente demonstrou que o filhote não tinha a mutação que o laboratório estava investigando, e o criador, feliz, continuou reproduzindo seus animais como sempre fez. No entanto, este raciocínio não foi o mais adequado: conforme discutido acima, o laboratório procurou apenas a mutação mais comum causadora da distrofia muscular, e não encontrou. Mas o filhote realmente tinha a doença, que é sempre de origem genética. O mais correto seria primeiramente ter detectado qual era a mutação presente no filhote doente (o que seria bem mais caro), e então procurado se os pais possuíam também esta mutação, ou não. Somente com estes dados, o criador poderia decidir corretamente pela continuidade da reprodução destes cães, ou pela castração dos mesmos.

                E quando o laudo demonstra um resultado “positivo”? Bem, a presença de somente uma cópia da mutação em um cão portador (carrier), para a enorme maioria das doenças (as recessivas), significa que as chances deste cão ter a doença no momento ou no futuro são mínimas e até mesmo nulas. De fato, muitos laboratórios denominam este animal de ‘portador assintomático’. É um alívio para o tutor ou o criador, mas para este último deve servir como um sinal de alerta: o cão portador pode ter deste nenhum filhote doente, até 50% de sua prole doente, dependendo com quem for reproduzido.  Quando o criador tem conhecimento do teste somente deste cão, mas não se importa com o laudo do outro animal do casal, é um desperdício! Afinal, a princípio o mesmo investiu no exame para impedir o nascimento de filhotes doentes, mas ao reproduzir este cão com outro igual, ele terá 25% da ninhada doente; reproduzindo com um cão que seja affectted/at risk, 50% da ninhada terá a doença (veja figura abaixo). Desta forma, fazer exames de DNA no plantel só para utilizar como marketing, não é a melhor estratégia, uma vez que não trará melhoramento genético para a raça, e nem irá garantir que o filhote colocado para uma família será livre da doença em questão. 

                  Outro tipo de resultado “positivo” é possível para o laudo affected/at risk. Nestes casos, o cão possui ambas as cópias possíveis, do gene relacionado à doença, mutadas. Isto possui significados diferentes, dependendo da doença: para algumas doenças, concorda com os sinais clínicos que o animal já possui, ou demonstra o aparecimento próximo destes sinais. Um exemplo é a anomalia do olho do Collie, ou CEA (Collie eye anomaly), que ocorre em animais desta raça, e em raças relacionadas. Todos os cães que possuem a mutação em duplicata, realmente desenvolvem a doença.  Outro exemplo é a doença de von Willebrand: todos os animais com laudos deste tipo realmente possuem a doença. Por outro lado, existem algumas doenças para as quais a presença da mutação em duplicata somente aumenta a chance da doença ocorrer. Este é o caso especialmente para doenças tardias, ou seja, aquelas que ocorrem na fase adulta ou no final da vida do cão. Como exemplos, temos as mutações relacionadas à atrofia progressiva da retina e à mielopatia degenerativa. No primeiro caso, cães affected/at risk em geral desenvolvem os problemas oculares a partir de 5 ou 6 anos de idade, mas alguns um pouco mais tarde. Se por acaso o cão vem a falecer devido a outro problema de saúde antes desta idade, ele jamais terá o diagnóstico de atrofia. Um exemplo ainda mais drástico é a mielopatia degenerativa. Esta é uma doença neurológica da velhice, uma vez que em geral provoca a perda dos movimentos das patas traseiras após os 10 anos. Diversos casos já foram relatados em cães que iniciaram os sinais clínicos com 14, 15 ou 16 anos, e não antes. Ou seja: como o exame de DNA não tem como determinar a idade na qual os sinais iniciarão, um grande número de cães com laudo affected/at risk jamais desenvolve a doença, pois morre antes por outras causas. Isto não significa que o exame de DNA não é informativo, mas que não prevê a idade de início de uma doença, que por sua natureza, é uma doença tardia. De fato, recentemente uma estatística divulgada pela revista Nature demonstra que somente 1% dos animais testados como affected/at risk para esta doença realmente a desenvolve, enquanto cães com laudos de outro tipo jamais apresentam os sinais clínicos. Para o criador, é importante lembrar que este cão, independente de apresentar ou não a doença (qualquer doença que seja) irá transmitir a mutação para 100% de sua prole. Ou seja: a situação ideal seria a de não reproduzi-lo, embora isto nem sempre seja possível.