O cruzamento de cães de duas raças diferentes é um assunto polêmico na cinofilia, com muitos preconceitos envolvidos, e muito desconhecimento da população compradora e tutores de cães em geral. Por um lado, os órgãos oficiais da prática cinófila condenam todo e qualquer tipo de mistura, partindo do princípio que misturar duas raças é absolutamente errado e não deve ser feito nunca, por absolutamente nenhum motivo. Por outro lado, boa parte do público leigo tem muito comumente o entendimento que cães de raça pura são sempre mais doentes que cães miscigenados, e acredita que está fazendo um bem ao promover uma mistura de raças. Infelizmente, o que vejo muitas vezes é uma completa irresponsabilidade de quem age desta forma, achando “divertido” fazer o teste para ver o resultado.  A área da genética possui diversos dados para demonstrar que nenhum dos dois extremos é correto, e estes dados serão apresentados e discutidos neste texto.

          Antes de mais nada, é preciso pensar em algumas definições. A primeira delas é sobre o que é uma raça, e o que seria uma “raça pura”. Na era dos “protetores influenciadores”, muitos deles com mais conteúdo de marketing pessoal do que de proteção animal, tem sido muito comum ouvirmos a frase “a ciência já comprovou que não existem raças, então é uma bobagem você desejar um cão de raça”. Este é um dos maiores absurdos propagados, e é baseado em trabalhos recentes, inclusive de geneticistas brasileiros, que estudaram as alegadas “raças” da espécie humana, e concluíram que na nossa espécie (na nos-sa es-pé-cie) não existem raças. A partir deste dado, se vê tanto leigos como médicos veterinários propagando na mídia a frase acima, que está muito, mas muito longe de ser verdade para outras espécies, especialmente espécies domesticadas pelo homem. Existem maneiras muito bem estabelecidas de determinar se existem ou não raças em uma espécie. Uma delas é um valor chamado “Fst”, que varia de 0 a 1, e que demonstra o grau de variabilidade entre indivíduos de uma amostra. Veja abaixo o exemplo da espécie humana, quando comparamos por exemplo, uma população européia com uma africana:

 

 

        É possível perceber, através de valores de Fst hipotéticos (porém muito próximos à realidade), que o grau de diferenciação/variação é maior dentro de cada população, do que entre elas. Lembre-se que o fenótipo físico externo (como por exemplo a cor da pele), é apenas a ponta do “iceberg”, e não deve ser suficiente para definirmos raças.

Por outro lado, quando avaliamos dados publicados em 2007 por Quignon e cols (veja referência ao final deste texto), percebemos que em caninos a situação é totalmente diversa, como demonstrado na figura abaixo:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

         

 

         Com estes dados (agora não hipotéticos, mas reais conforme publicados pelo autor citado), percebemos que ao comparar duas raças caninas aleatoriamente selecionadas, a situação à oposta àquela vista em seres humanos. E isto se repete para quase todas as comparações entre raças caninas (com exceção daquelas estreitamente relacionadas). Ou seja, este é apenas uma dentre as várias evidências que comprovam a existência de diferentes raças em caninos – e todo cinófilo sabe que são mais de 300 reconhecidas internacionalmente, e ainda no mínimo dobro disto se contarmos raças com reconhecimento apenas local (em seus países de origem).     

         A partir daí, é importante discutir um termo muito mal utilizado, especialmente quando se traduz diretamente do inglês, que é o termo “raça pura” (do inglês “purebreed”). Para a genética, este termo não faz nenhum sentido, uma vez que é impossível existir uma raça que tenha a genética somente dela, totalmente diferente da outra. Se estivéssemos falando de espécie, dependendo do número de parâmetros utilizados, poderíamos falar de “pureza”, já que para vários genes uma espécie é totalmente diferente da outra, e além disto, espécies não se misturam. Mas justamente o que faz dois cães serem da mesma espécie, porém de raças diferentes, é o número de genes similares que os mesmos portam: Berneses e Goldens possuem exatamente os mesmos genes (para ser exata, os mesmos 20.100 genes diferentes). Já se compararmos um cão com o ser humano, o último possui 23 mil genes, muitos que ocorrem somente em seres humanos. Desta forma, a genética não fornece nenhum subsídio para  embasar o termo “raça pura”. Você pode se referir à “cão de raça”, mas não à “cão de raça pura”. Em inglês, um termo mais correto do que “cão de raça pura” (purebreed dog) seria “cão com pedigree” (pedigree dog), indicando que quando existe registro genealógico fechado, existe uma raça. 

 

         Além disto, afim de definir o escopo do presente texto, gostaria também de diferenciar os diversos tipos e objetivos de misturas raciais:

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o cão SRD (sem raça definida) é diferente do cão mix por diversos motivos. Primeiramente, como a própria sigla diz, não se conhece quais raças compõe o cão SRD, a não ser que um teste genético seja realizado. Além disto, a mistura provavelmente não ocorreu somente entre duas raças, e nem o cão SRD é um cão de primeira geração de mistura. Diversas misturas ocorreram ao longo de diversas gerações, e muito importante: não existe registro algum dessas misturas. Além disto, cada população de cães SRD terá se originado de um conjunto de cães diferentes: por exemplo, os SRDs da cidade de São Paulo são geneticamente distintos dos SRDs da cidade de Porto Alegre, e ainda mais distintos dos SRDs de Bombaim, na India. Ou seja: não existe como definir vulnerabilidades, predisposições ou mesmo qualidades de SRDs de uma maneira geral, já que não existe somente “um tipo de SRD”. Se cães sem raça definida possuem uma característica em comum é esta: a completa imprevisibilidade. Cada população e cada cão é uma linda caixinha de surpresas. 

a definição do verdadeiro cão MIX é a daquele que é originado de duas raças puras bem definidas e conhecidas. Tanto o pai da “raça A” como a mãe da “raça B” possuem pedigrees conhecidos e, portanto, um registro de ancestralidade. Dessa forma, embora não seja possível registrar oficialmente um cão “mix” (ou quando com o registro o mesmo não possa ser reproduzido), sua ancestralidade é conhecida. O presente texto se refere à cães MIX.

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