Existem diferentes motivos pelos quais criadores ou tutores realizam a mistura de raças. Dependendo da forma de controle e registro de acasalamentos, esta prática pode ser bem sucedida ou pode ser um verdadeiro desastre para a população de cães.

  1. A criação de uma nova raça

         O primeiro motivo seria o desejo de originar uma nova raça. Historicamente, um grande número de raças foi originado a partir da mistura de duas ou mais raças. Esta ferramenta foi essencial para a existência das centenas de raças caninas conhecidas atualmente. No entanto, é importante lembrar que a criação de uma nova raça é um processo extremamente lento, e cheio de erros (além dos óbvios acertos), já que é impossível prever o resultado fenotípico de uma mistura de raças, antes que a mesma seja feita. Nas primeiras gerações de mistura (F2 em diante), espera-se uma grande variabilidade fenotípica, o que para o criador pode ser difícil já que boa parte dos fenótipos produzidos não estarão de acordo com o plano desejado originalmente para a nova raça. Muitos destes cães não terão valor comercial algum, e o criador se verá na dificuldade de conseguir colocação para estes cães em famílias que os adotem. Desta forma, a não ser que seja feito de forma organizada por um conjunto ou associação de criadores, que tenham estas dificuldades em mente, e planos bem definidos para lidar com as mesmas, o desejo do leigo de criar uma nova raça é um processo que tem grande potencial de dar errado, contribuindo para o já tão alto abandono animal. É importante perceber que uma proporção pequena dos filhotes mestiços produzidos terá o novo conjunto de fenótipos desejados (tanto físicos como comportamentais), e que somente estes serão reproduzidos e irão contribuir para o conjunto gênico da “nova raça”. Por isto, a forma ideal de criar novas raças é através do cruzamento de um grande número de machos e fêmeas das raças puras originais, para que a escolha de um pequeno número de filhotes mestiços ainda renda um número de reprodutores que seja interessante e viável geneticamente. Concluindo, a criação de uma nova raça é um processo complexo, trabalhoso, longo, dispendioso e que deve ser feito em equipe, preferencialmente com auxílio técnico de geneticista. Como para homogeneizar mais rapidamente a nova raça, ainda é interessante que sejam feitos acasalamentos consanguíneos entre os mestiços com fenótipos desejados, é também um processo perigoso e arriscado (como qualquer consanguinidade), que irá gerar cães com diversos problemas de saúde, que devem ser descartados da reprodução. Desta forma, sabendo que a espécie canina é a espécie domesticada com o maior número de raças existentes, e que existem raças para todas as necessidades de interações com seres humanos, acredito ser totalmente desnecessário atualmente que se pense em criar novas raças. Pessoalmente, acredito que o foco deve ser o de preservar as raças já existentes.

2. A criação de cães mix

         A ciência da genética já estuda na prática há muito tempo o que ocorre com as gerações de filhotes mestiços em outras espécies. Um grande volume de dados encontra-se disponível, especialmente originados de animais de produção, nos quais a mistura de raças é uma ferramenta muito utilizada. Assim, sabe-se que a criação da primeira geração de mix/mestiço será bastante homogênea – embora imprevisível. Ou seja: na primeira vez que alguém decidir cruzar a raça “A” com a raça “B”, não tem como prever quais qualidades e defeitos de cada raça o cão mestiço irá receber dos pais. Podemos imaginar o exemplo do famoso “labradoodle”. Quando Wally Conron, na década de 1980, resolveu cruzar um Poodle com um Labrador, ele não fazia idéia do que aconteceria como resultado: ele poderia ter tido uma primeira geração de mestiços (também chamada de F1), que tivesse alta propensão à displasia coxofemoral (como no Labrador) e que demonstrasse comportamento excessivo de latir (como no Poodle). Se esse tivesse sido o caso, o “labradoodle” não teria atingido a popularidade que atingiu – ninguém quer um cão displásico que late para qualquer barulho. Mestiços originados destas cruzas teriam sido descartados do programa de criação, com sorte castrados. Mas estes mestiços poderiam também acabar contribuindo para aumentar a já imensa massa de cães SRD abandonados. No entanto, para a sorte de Wally Conron, o mestiço criado por ele pareceu unir as melhores coisas de ambas as raças: tamanho grande, poucos latidos e comportamento afável e brincalhão do labrador, juntamente com a maior longevidade e menor queda de pelos do Poodle (a alegada hipoalergenicidade do Poodle e também desse mestiço não passa de lenda). Além disto, através de um fenômeno conhecido como “heterose”, esta primeira geração de mestiços não só demonstrou estas qualidades das raças parentais, como ainda as superou. É o que é conhecido também como “vigor híbrido”, comum em outras espécies, mas que sabidamente só ocorre de forma significante nesta primeira geração de mestiços (F1). A heterose se manifesta na F1 também através da ausência (ou frequência extremamente baixa) de cães com doenças genéticas, já que estes cães são heterozigotos para maior parte de seus genes (lembre-se: heterozigotos são apenas portadores de mutações, porém assintomáticos). Desta forma, é verdadeira a alegação popular de que cães mestiços são mais saudáveis que os de raças puras, porém somente os mix de F1, como demonstrado na figura abaixo,

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       Wally pensou que havia feito o cruzamento perfeito. No entanto, ao colocar seus mestiços para diferentes famílias e criadores não tomou sempre o cuidado de garantir que eles não seriam reproduzidos. . E quando mestiços de F1 são reproduzidos para gerar novas gerações de mestiços (F2, F3, F4...), dois grandes problemas acontecem: 1) a homogeneidade fenotípica é perdida, com o nascimento de mestiços de diversos tipos diferentes (desde adequados, até com fenótipos totalmente indesejados); e 2) a heterose é perdida, ou seja, a partir da F2 a superioridade e ausência de doenças percebida em F1 não é mais significante. Isto acontece porque os cães de F1 são heterozigotos para muitos genes (em tese, para o dobro de genes do que as raças originais). Porém quando se acasala F1 x F1 estão sendo acasalados dois cães heterozigotos para muitos genes (Aa, Bb, Cc... etc). E a partir da F2 irão aparecer cães homozigotos recessivos para muito mais doenças, do que as das raças originais, conforme a figura abaixo.

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          Mesmo que a situação possa estar mais controlada atualmente em alguns países, e em alguns grupos de criadores, por um bom tempo diversos problemas apareceram na criação desta raça – e este tipo de criação ainda pode ser um problema se criado sem responsabilidade redobrada. Por este motivo, o criador do Labradoodle é famoso por sua afirmação de “ter se arrependido”. No entanto, a área da genética explica e prevê estes problemas. De fato, a única maneira de criar mestiços corretamente é através de um controle extremamente rígido , que envolve ao menos estas três práticas:

           1) as raças puras devem ser preservadas, para estarem disponíveis para a criação de novos cães F1 de                                    qualidade;

           2) o registro genealógico deve ser rígido, com a emissão de algum documento de filiação para o cão                                        mestiço, para que não se perca a ideia de qual geração de mestiço o mesmo pertence (F1, F2...); 

           3) o cão F1 deve ser o produto final deste processo, e ser impedido de ser reproduzido (a não ser                                           quando o objetivo é criar uma nova raça, como já foi discutido acima).

 

          Ou seja: repetir o processo de criar novos mestiços de F1 a partir de duplas de raças nunca misturadas antes, é um ato arriscado devido à sua imprevisibilidade; no entanto, quando a mistura de duas raças passa a ser repetida, por mais e mais criadores, isso ocorre devido as boas experiências dos primeiros, e a imprevisibilidade diminui. Mas não tomar as devidas precauções para que estes mestiços de F1 não sejam reproduzidos, ou sejam reproduzidos somente sob um rígido esquema de controle, não é somente arriscado: é irresponsável, e traz um significado subjacente oposto ao da etimologia da palavra “cinofilia”, que significa “amor aos cães”.

           Há ainda práticas infelizmente bastante difundidas de miscigenação de raças que devido ao uso da língua inglesa, podem parecer ao leigo atitudes com mais controle e seriedade: estou me referindo aos “designer dogs” ou “dog design”. Alguns grupos, que não são reconhecidos por nenhuma entidade cinófila oficial, alegam que praticam o “dog design” de forma séria devida à existência do registro genealógico. Concordo totalmente que realizar o registro genealógico é um passo essencial em qualquer criação, sendo ela oficial ou não. Na verdade, a ausência de um registro é o primeiro dos grandes problemas inerentes à mistura de raças. No entanto, de nada adianta registrar o pedigree e não realizar controles de espécie alguma. Veja alguns exemplos de ausência de controle nestas práticas:

  • se registra um cão como o “dog design da raça X” sempre que o mesmo é originado da mistura das raças A,B,C,D,E,F,G,H ou I (sim! Isto mesmo que você entendeu... muitas constituições genéticas diferentes podem ser entendidas como um “dog design da nova raça X”... assim, existe a nova raça X?)

  • não é obrigatório que os cães utilizados na reprodução para a formação desta raça “dog design” passem por nenhum tipo de avaliação: ou seja, qualquer tipo de fenótipo físico ou comportamental é aceito. Imagine a variação possível desta “nova raça”...

  • nenhum exame de saúde é feito para a escolha destes reprodutores. Assim, o “dog design da raça X” corre o risco de ter um somatório de todas as doenças existentes nas raças puras, já que a reprodução não para na F1.

  • - ou seja, não existe nenhuma regra ou limite para a reprodução destes cães.

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Quando esta população miscigenada se torna numerosa, é comum que a raça original passe a ser denegrida, já que os padrões da mesma (físico e de comportamento), são paulatinamente deturpados.

Desta forma, a minha conclusão pessoal sobre a prática de mistura de raças é de que a mesma até poderia contribuir para a cinofilia e atuar de acordo com as práticas de bem estar animal, mas somente com a formação de associações sérias de criadores, que se utilizassem de regras rígidas para a reprodução e um controle genealógico fidedigno. Da forma como geralmente é feita, traz um grande risco para as raças puras, já que muitas vezes as mesmas acabam por ser miscigenadas por leigos, originando todo tipo de problema que já foi discutido.

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O que é uma raça? Existem raças? E raças puras? Qual a diferença entre mix e SRDs?

Que tipos de cães mix existem, e por que são produzidos?

        - a criação de uma nova raça

        - a criação de cães mix

A inserção de características não oficiais: os cães exóticos

A mistura de raças para o resgate genético