Infelizmente novamente temos aqui a utilização de um termo muito útil como marketing, que é o termo do cão “exótico”. O comprador desavisado entende que o cão exótico é interessante, raro, talvez mais saudável, e acaba estimulando muito a prática deste tipo de criação, pois remunera o criador com valores superiores à média para a raça, somente devido a este entendimento errôneo. Bem, mas você sabe qual é o conceito correto de cão “exótico” ?

O cão exótico é somente aquele que possui alguma característica fora do padrão oficial da raça no país.

         Em geral, esta característica “diferente” é a cor da pelagem e, então, é importante diferenciar para o presente texto duas situações:  

-a primeira seria a cor exótica que fez parte da origem da raça, mas por algum motivo não é mais aceita no padrão atual 

- a segunda situação é a da cor exótica que não tem registro de estar presente ao longo da formação e criação da  raça, mas que foi inserida recentemente para formar essa “novidade”.

 

        Em ambas as situações temos a complexidade da ausência de registro genealógico fidedigno, já que quando o registro para um cão exótico é emitido pelo órgão oficial, o mesmo não pode ser reproduzido. Desta forma, a criação de exóticos é uma criação na qual o controle genealógico, quando é feito, deve ocorrer de forma não oficial. Como exemplo, temos o Spitz Alemão de pelagem Merle. Já há alguns anos, este é considerado um cão exótico no Brasil, pois a coloração merle foi excluída da raça pela FCI. Desta forma, o controle genealógico ficou prejudicado (muitas vezes até ausente), mas é importante lembrar que este é um caso de coloração existente na história da raça, ao menos para a variedade Anão (ou Pomerânia). Dessa forma, não precisou ser “inserida”, uma vez que já estava no pool genético da raça, e não é sobre este tipo de exótico que o presente texto se refere.

          Por outro lado, teremos diversos casos de raças sem a presença do merle ao longo de toda a sua história, a não ser na última década (ou até mais recentemente), quando a coloração “surgiu” na raça. Inicialmente sendo rara, mas com a popularização e ausência de controle, se tornando difundida. Esta cor diferente do pool genético original da raça não surgiu por milagre... é claro! Mas foi inserida, através de algum cruzamento com outra raça, na qual o merle estava presente. Desta forma, a formação de um cão exótico deste tipo passa pela mestiçagem , e como a mesma ocorre sem controle, não se sabe qual a genética foi inserida.

 

 

 

           

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Mas eu crio exóticos e nunca cruzei com outra raça... meus cães são puros!

Desculpe, criador, mas preciso lhe contar uma coisa:

você pode não ter ter cruzado com outra raça, mas o cruzamento ocorreu em algum ponto do passado, e certamente trouxe junto outras características, além da cor.

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Mas me disseram que as cores novas surgem por mutação, não por mistura de raças!

Desculpe lhe contar isso novamente, mas você foi enganado!

Com milhares de genes disponíveis para mutar, porque a mutação ocorreria justamente nos genes de cor?

Além disto, mutações são eventos aleatórios... porque as mesmas criariam justamente cores que já existem em outras raças? 

A mutação não é a causa de cores novas, a não ser em casos completamente excepcionais e pontuais!

         Mas qual o resultado de inserir uma cor através da mistura de raças? Engana-se quem pensa que a única característica inserida foi aquela de interesse (no exemplo, a cor). Quando existe um controle rígido e a participação de profissionais geneticistas no processo, ao longo de algumas gerações é possível realizar uma maior definição do que “fica” da genética introduzida (no exemplo seria o merle), e do que “sai” desta genética (todas as outras características indesejáveis para a raça). No entanto, não é o que acontece: na prática, a inserção de uma genética externa é feita sem registro, sem controle, sem mão de obra especializada, em uma priorização excessiva da manutenção de fenótipos físicos externos. Além disto, a criação de um exótico (primeiras gerações) exige a consanguinidade excessiva para a homogeneização de ninhadas em poucas gerações. O resultado não poderia ser diferente: o “cão exótico” resultante é uma caixinha de surpresas: não se sabe de qual raça veio a cor diferente, e muito menos se sabe quais doenças vieram junto, e quais características comportamentais – que podem acabar por serem inseridas de maneira inadvertida na raça. Dessa forma, a criação deste tipo de cão exótico sem controle, é o que acontece para o "surgimento" de “cães da raça X, com cor da raça Y”, porém com outras características da raça “Y” também.

Sabemos onde essa história termina: tutores surpresos e insatisfeitos com o temperamento ou a saúde de seu cão, e eventualmente, abandono.

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