5)Na detecção de animais que irão desenvolver doenças de início tardio: para doenças recessivas,

O fantasma do sarcoma histiocítico na raça Bernese: possibilidades de melhoramento genético

Fabiana Michelsen de Andrade, Bióloga Geneticista, MSc, PhD

Clairton Marcolongo Pereira, Médico Veterinário Patologista, MSc, PhD

         HISTIOCITOSE é o nome dado a um conjunto de alterações bastante heterogêneas que incluem desde problemas de pele, até tumores. Dentre estas, a mais grave é o câncer denominado de SARCOMA HISTIOCÍTICO (HS), também chamado de histiocitose maligna. Este tumor ocorre quando células do sistema imunológico, chamadas histiócitos (macrófagos), começam a se multiplicar desordenadamente e sem controle. Este tipo de câncer é altamente agressivo, e geralmente no momento de seu diagnóstico já está disseminado em diferentes locais do organismo, pois histiócitos são células presentes em vários tecidos diferentes. 

      Apesar do sarcoma histiocítico ser bastante raro na maior parte das raças caninas, no Bernese é uma doença muito comum. Estudos realizados na Europa com cães tanto deste continente como americanos, demonstraram que entre 15% a 25% dos cães desta raça terão este tumor em alguma fase de sua vida, o que representa um número altamente alarmante. Foi estimado que um Bernese tem 225 vezes mais chance de ter o sarcoma histiocítico do que cães de outras raças. Aparentemente, este número aumentou muito nos últimos 20 anos, e o motivo provável é a utilização excessiva de poucos animais escolhidos para a reprodução, sem a prévia avaliação destes animais com relação à sua predisposição genética para a histiocitose maligna.

       

        A idade média de diagnóstico do sarcoma histiocítico é de 6.5 anos, afetando machos e fêmeas em igual frequência. Geralmente os animais sobrevivem em média 1 mês após o diagnóstico, e menos de 10% dos cães sobrevivem mais de 4 meses. Os sinais clínicos iniciais incluem letargia, anorexia, perda de peso, alterações do sistema respiratório (como dificuldade respiratória e tosse), alterações no fígado, sistema nervoso central, e febre. Pulmão, baço e linfonodos são os órgãos mais acometidos pelos tumores iniciais, podendo haver lesões de pele, ulceradas ou não. Mais de 50% dos animais apresentam tumores múltiplos no momento do diagnóstico. Especialmente quando estes cães têm parentes em primeiro ou segundo grau sendo utilizados como reprodutores. É de extrema importância a confirmação do diagnóstico, que deve ser realizada por médico veterinário patologista, tanto através de necropsia quanto de análise microscópica de biópsias do cão afetado.

 

         Em 2016, uma investigação realizada em conjunto com a Berner-Garde Foundation estudou mais de 200 Berneses, sendo que 135 destes já tinham tido o diagnóstico de sarcoma histiocítico. Estes animais foram comparados com animais saudáveis de idades similares, e seus históricos de possíveis fatores de risco foram avaliados. O número de animais que haviam passado por alguma cirurgia ou sido infectados por alguma doença transmitida por carrapato ou outros vetores foi comparado entre cães com histiocitose e cães normais. Também foram comparados entre estes dois grupos o número de animais que haviam utilizado medicamentos de uso contínuo, medicamentos preventivos para ectoparasitas (pulga, mosquitos e carrapatos), vermífugos, vacinas, e até homeopatia, e de animais que apresentavam sobrepeso. Até mesmo o tipo de alimentação (ração ou alimentação natural) e se os cães tinham entrado em contato com pesticidas foi, também, avaliado. Nenhum destes fatores foi relacionado com aumento de chance de desenvolvimento a doença. O único fator associado com um aumento de risco para o desenvolvimento de histiocitose foi a presença de alguma doença ortopédica. Os pesquisadores acreditam que esta relação ocorre devido à inflamação crônica provocada por problemas ortopédicos, e suspeitam que esta inflamação contínua contribui para o desenvolvimento da histiocitose. No entanto, somente este fator não é capaz de explicar a alta frequência da doença na raça.

A influência da genética sobre a doença e os testes de DNA

           Como a doença é bastante rara em outras raças, e dentre os Bernese essa enfermidade é muito mais frequente dentro de algumas linhagens familiares, há alguns anos acredita-se que esta enfermidade possui uma forte influência genética nesta raça. No entanto, ela não parece ser uma doença recessiva simples, que seria explicada somente por uma mutação que ocorrendo em duplicata acometeria com certeza o animal. Ao contrário, evidências demonstram que o HS possui uma grande influência genética, mas que o papel da genética não é assim tão simples. Na verdade, esta influência é denominada de “oligogênica”. Doenças oligogênicas têm pouca ou nenhuma influência do ambiente, e são influenciadas por alguns genes diferentes, sendo que um deles parece ter um papel maior que o restante. Este gene principal, que tem forte influência sobre o sarcoma histiocítico, já foi identificado, porém seu papel exato sobre o risco da doença ainda se encontra em estudo.

 

             Em 2012, um grupo de cientistas estudou cães da Europa e da América do Norte, e percebeu que algumas mutações em um conjunto de genes denominado MTAP/CDKN2A estava presente em 96% dos animais com histiocitose, mas não em todos. No entanto, o conjunto de mutações foi diferente em cães de origem europeia ou americanos, indicando que qualquer exame genético que fosse desenvolvido a partir destes dados deveria levar em conta a origem do animal. Um dado de grande importância demonstrado neste primeiro trabalho foi o de que muitos animais saudáveis (84%) também possuíam estas mutações, ou seja, elas não eram causadoras da doença, mas apenas aumentavam a chance de sua ocorrência.  

 

                Desde então, um grupo de cientistas europeus, liderados pelos Drs Catherine Andre e Benoit Hedan (do Centro Nacional de Pesquisa Científica da Universidade de Rennes, França - http://dogs.genouest.org/), tem aprofundado a pesquisa em torno da procura da causa genética do sarcoma histiocítico, avaliando um número crescente de animais. Como o projeto se encontra em andamento, os dados ainda não foram publicados, mas os mesmos exames genéticos feitos para esta pesquisa estão disponíveis para qualquer cão da raça, através do laboratório francês ANTAGEN. Este laboratório possui um convênio para recebimento de amostras, com um laboratório norte americano, chamado OPTIGEN, de maneira que é possível optar entre enviar amostra do cão para os Estados Unidos (Optigen) ou para a França (Antagen).  Como a doença é bastante complexa, ainda não existe a certeza do significado clínico do teste genético, e por isto o laboratório Antagen o denomina de “pré teste”.

 

                Ao optar por testar um Bernese por meio do exame oferecido pelo laboratório Antagen, é de extrema importância entender o que os possíveis resultados irão significar. O laudo fornecido pelo laboratório não demonstra quais são as mutações avaliadas, mas classifica o cão em três “índices genéticos”. Provavelmente, este laudo é construído desta maneira tão “misteriosa” para que outros laboratórios não consigam oferecer o mesmo teste, e é uma proteção para que este tipo de teste não seja vendido sem toda a orientação fornecida pelo laboratório Antagen. Assim, criadores ou tutores que optam por testar seu cão são antes  informados sobre  o real significado  do resultado, que é  classificado  como  “índice  genético” A, B ou C.

                           

A

cães que possuem quatro vezes MENOS chance de desenvolver a doença, se comparados com a média da população testada

B

cães com risco neutro

C

cães que possuem quatro vezes MAIS chance de desenvolver a doença, se comparados com a média da população testada

       Estes valores de risco aumentado ou diminuído demonstram justamente que estes índices genéticos não podem ser utilizados para diagnóstico precoce da doença, e nem como certeza de que um cão com o “índice A” jamais terá a patologia. O número de cães saudáveis (com mais de 10 anos) e doentes com cada índice demonstra isto também:

         


         

Cães com sarcoma histiocítico:

A: 14%

B: 43%

C: 43%

          O laboratório Antagen deixa bastante claro que este teste não deve ser utilizado como diagnóstico auxiliar, mas sim como um dado adicional para a escolha de cruzamentos que diminuam o risco do sarcoma histiocítico. Outro dado que o laboratório disponibiliza a partir dos dados gerados pelo projeto de pesquisa até o momento é a chance que cada animal com índice A ou C possui de desenvolver a doença ou de ser saudável, conforme demonstrado:

Cães saudáveis:

A: 41.5%
B: 46.5%
C: 12%

--> chance de um cão “índice A” nunca ter sarcoma histiocítico = 68,3%

--> chance de um cão “índice C” ter sarcoma histiocítico = 82,8%

        Como o teste não é aplicável para diagnóstico, criadores que optarem por testar seus cães devem utilizar os resultados para direcionar os cruzamentos mais adequados. Não é indicado que qualquer cão com “índice C” seja retirado da reprodução pois estes são muito numerosos (mais de 30% dos Bernese estudados). No entanto, estes dados devem ser utilizados para direcionar a escolha de casais, reproduzindo este animal com “índice C” preferencialmente com cães “A”, ou mesmo com cães “B”, mas não com outro cão que tenha “índice C” também. Acredita-se que esta estratégia irá diminuir gradativamente a predisposição genética para a doença em Bernese, sem diminuir o número de animais sendo reproduzidos, o que pode ser muito perigoso para a raça.

Trabalhando para diminuir a prevalência do sarcoma histiocítico sem utilizar testes de DNA:

                É possível trabalhar a favor da diminuição de prevalência desta doença mesmo sem utilizar exames de DNA, apesar de inegavelmente este tipo de ferramenta ser um auxiliar neste processo. O trabalho do criador que não tem a possibilidade de testar seus animais deve ocorrer através de uma cuidadosa pesquisa sobre os parentes de seus animais. Quanto maior for o contato que o criador tiver com outros criadores e com tutores para quem já entregou seus filhotes, maior será o conhecimento de quais animais desenvolveram o sarcoma histiocítico, e maiores serão as possibilidades de diminuir a chance da doença em sua criação.  

                O raciocínio neste sentido deve ocorrer da mesma maneira que já é feito para a eliminação de características indesejáveis/faltas ou seja, uma falta de um lado do cruzamento nunca é repetida pelo outro lado do cruzamento. No entanto, para o sarcoma histiocítico, deve-se pensar que a “falta” é o animal que já teve algum parente de 1º ou 2º grau com este tipo de diagnóstico. Um animal assim jamais deve ser reproduzido com um animal que também tenha algum parente com este diagnóstico, pois caso isso ocorra o criador está aumentando a predisposição genética da ninhada, e não diminuindo.

                Outro dado de extrema importância é quando algum filhote oriundo do canil possui o diagnóstico de sarcoma histiocítico. Este acontecimento deve soar como um sinal de alerta para o criador, não no sentido de retirar seus pais da reprodução, mas no de não repetir o mesmo cruzamento. O macho e a fêmea devem ser “marcados” como prováveis portadores de predisposição, e serem reproduzidos com animais de linhagens completamente distintas.

                Este tipo de trabalho pode ser bastante efetivo na diminuição da doença na raça, apesar da ausência dos testes genéticos, que certamente poderiam aumentar ainda mais sua eficiência. No entanto, para que este tipo de prática tenha chance de dar bons frutos, é necessário que criadores se unam em prol da raça, e não tenham nenhum tipo de receio de divulgar diagnósticos de sarcoma histiocítico em suas criações. Afinal de contas, este tipo de ocorrência não é ‘culpa’ de nenhum criador, e mesmo nas criações mais avançadas e de qualidade, a doença pode aparecer, uma vez que é bastante complexa de ser eliminada. Assim, somente a união entre criadores poderá salvar o Bernese deste destino tão cruel para o cão, e que causa tamanhos prejuízos emocionais para tutores que não tiveram outra escolha a não ser se apaixonar pelo cão desta raça fantástica.  

Fontes para consulta:

 

1 -Abadie J. e cols (2009). Epidemiology, Pathology, and Genetics of Histiocytic Sarcoma in the Bernese Mountain Dog Breed. Journal of Heredity:100(Supplement 1):S19–S27 (pdf disponível aqui)

 

2 - Shearin A.L. (2012). The MTAP-CDKN2A Locus Confers Susceptibility to a Naturally Occurring Canine Cancer. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev. 21(7): 1019–1027. (pdf disponível aqui)

 

3 - Ruple A. e Morley P.S. (2016). Risk Factors Associated with Development of Histiocytic Sarcoma in Bernese Mountain Dogs. Vet Intern Med,  30:1197–1203 (pdf disponível aqui)

 

4 - Laboratório Optigen: http://www.optigen.com/opt9_hs_pretest.html