5)Na detecção de animais que irão desenvolver doenças de início tardio: para doenças recessivas,

MUTAÇÃO NO GENE MDR1 E A INTOLERÂNCIA À IVERMECTINA

MDR1 e a importância clínica

            A intolerância ou  hipersensibilidade à ivermectina é um problema comum em algumas raças de cães, e que pode ser fatal. O animal afetado é chamado de intolerante ou hipersensível, pois ao utilizar alguns tipos de medicamentos, estes se acumulam anormalmente no cérebro, trazendo uma série de sinais clínicos. Estes sinais incluem depressão, sonolência, excesso de produção de saliva, tremores, ataxia (perda de coordenação de movimentos), dilatação da pupila, podendo chegar ao coma e até à morte do animal.  A ivermectina não é o único medicamento relacionado, apesar de ter dado nome ao problema: fármacos que levam a este tipo de quadro clínico em animais hipersensíveis incluem também a doramectina (agente antiparasitário), a vincristina, a vimblastina e a doxorrubicina, que são agentes quimioterápicos,  além de qualquer fármaco cujo substrato seja a glicoproteína P. A lista completa de fármacos que causam este tipo de reação pode ser encontrada no site da Washington State University (http://vcpl.vetmed.wsu.edu/problem-drugs). 

          Muitos veterinários, cientes deste risco, optam pela não utilização destes medicamentos em cães das raças mais afetadas, e dentre estas o Collie é a raça mais conhecida por ser afetada. No entanto, muitas vezes estes seriam os medicamentos de primeira escolha, e é de extrema importância identificar o animal que poderá apresentar os efeitos indesejáveis, e somente para estes evitar o uso destes princípios ativos.

            A única maneira de diferenciar estes animais antes da utilização dos medicamentos é através de um teste genético, pois este problema é causado por uma mutação já conhecida, no gene denominado MDR1. Originalmente descrita como recessiva, atualmente sabe-se que esta mutação é incompletamente dominante: cães portadores de somente uma cópia da mutação são sensíveis, porém manifestam os sinais clínicos de uma maneira muito mais branda do que cães que possuem duas cópias da mutação (herdadas de pai e mãe), nos quais as manifestações clínicas são as mais graves. Recentemente se descobriu, inclusive, que cães portadores de somente uma cópia podem ser tratados com os medicamentos em questão, mas em uma dose menor, que se torna segura. Desta maneira, é de extrema importância clínica para as raças afetadas, ter seu status genético determinado por exame de DNA, pois esta  informação pode ser de grande valia para o médico veterinário: além de informar se o cão não pode sob hipótese alguma ser tratado com estes fármacos, o resultado do teste pode demonstrar que o mesmo pode ser tratado, porém com uma dose menor, ou mesmo ser tratado com a dose padrão, mesmo que seja de uma raça com alta prevalência do problema. 

             O exame genético MDR1 determina se o animal é totalmente livre da mutação (clear), se é um portador de uma copia da mutação (carrier) ou se possui a mutação em duplicata (affected). Este teste é feito em diversos laboratórios do mundo, inclusive no Brasil.

...que não tenha vindo do canil com a informação sobre MDR1, fale com seu médico veterinário, que irá lhe orientar para realizar o teste genético. Este problema ocorre em 50% ou mais dos cães destas raças*

Ou entre em contato conosco aqui

* raças com menos animais afetados (abaixo de 10%) incluem o Border collie, o Whipped de pelo longo, o Pastor alemão e o Sheepdog.

Caso você possua um cão das raças...

MDR1 e a importância na criação

           

              O cão que possua a mutação em duplicata deve ser reproduzido apenas em situações excepcionais, e sempre com um animal sem a mutação, uma vez  100% de seus filhos serão portadores (carrier). O cão portador de uma cópia da mutação pode ser utilizado em programas de cruzamentos controlados: é de extrema importância sua detecção, para que seja reproduzido com um cão livre da mutação.  Este tipo de cruzamento impede o nascimento de qualquer filhote que apresente a intolerância. Filhotes que nasçam portadores  devem ter esta informação acompanhada do pedigree, para que nunca sejam reproduzidos com animais também portadores.

                 

                  Veja nossa ilustração abaixo.

                 

               É provável que um cão com excelentes qualidades possua mutação em MDR1, especialmente para as raças mais afetadas descritas acima. Nestes casos, não é adequado deixar de reproduzir todos os cães afetados, pois isto diminuiria muito o número de cães sendo reproduzidos em uma geração e, portanto, diminuiria a variabilidade genética da raça. No entanto, a reprodução destes cães deve ser controlada, e não indiscriminada. Assim, caso seja produzida uma ninhada com risco de ter algum filhote afetado, é de extrema importância determinar qual filhote é portador (de uma ou duas cópias), tanto para sua utilização futura como reprodutor, como para sua venda: o comprador deve ser informado do resultado para MDR1!! 

                 

Ética na criação: 

produzir um filhote afetado, em raças onde o problema é tão frequente, pode acontecer! Mas não deixe de informar o comprador do resultado do teste para MDR1!

Legenda para resultado do exame de DNA

Normal para o gene "MDR1"

(o animal não hipersensibilidade, nem é portador da mutação. Também denominado 'clear')

Portador para o gene "MDR1"

(o animal tem uma leve sensibilidade, porque é portador de somente uma  cópia da mutação. Também denominado 'carrier')

Afetado para o gene "MDR1"

(o animal apresenta a hipersensibilidade. Também denominado "affected")

Perceba que se ambos os pais tiverem o laudo de CLEAR/NORMAL no teste de MDR1, com certeza os filhotes também nascerão CLEAR/NORMAL, não sendo necessário novo teste genético!

 

Estes filhotes serão denominados de

"NORMAIS/CLEAR POR DESCENDÊNCIA"

Fontes para consulta:

 

1 - Multidrug Sensitivity in Dogs. Washington State University: http://vcpl.vetmed.wsu.edu/

2 - Mutação no gene de Resistência a múltiplas drogas 1 (MDR1). Australian Shepherd Health & Genetics Institute: http://www.ashgi.org/home-page/genetics-info/epilepsy-other-neurological-issues/mdr1/mdr1-pt

3 - Monobe M e cols (2015). Frequency of the MDR1 mutant allele associated with multidrug sensitivity in dogs from Brazil. pdf

4 - Firdova Z e cols (2016). The prevalence of ABCB1:c.227_230delATAG mutation in affected dog
breeds from European countries. pdf